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domingo, 5 de junho de 2011

Rascunho sobre a sociedade moderna (pra um trabalho de SMD)

Com o nascimento das organizações sociais, surge também a opressão social e, desde o princípio, a história é escrita por quem detém mais poder e pelos vencedores. Os vencidos e oprimidos logo são taxados de bárbaros, criminosos, raça inferior, subdesenvolvidos, renegados e coisas do tipo. E, como uma ferida infeccionada, que não sara, eles permanecem em todas as sociedades, em todos os lugares. Mas o motivo é que, sem oprimidos, não haveria opressores. Não há sentido em ser a classe dominante se não houver como dominar. E estas pessoas permanecem presas à miséria, esperando por uma justiça e compaixão fictícias, criadas para mantê-los presos a algemas que recebem o conveniente nome de esperança.
No entanto, se ilude quem pensa que todos os assim chamados “bárbaros, criminosos, piratas” se contentam e aceitam esta situação de braços cruzados. Uma rápida revisão da história mais recente seria suficiente para apontar dezenas, senão centenas de nomes que foram incriminados, perseguidos, execrados pela sociedade para depois tornarem-se heróis, quando isso foi conveniente. Apesar de muitos, certamente uma parcela ínfima do que deve ser a totalidade de mártires que precisaram perecer, a grande maioria no anonimato, para que nossa realidade não seja ainda pior. Apenas para citar alguns, poderíamos listar:
• Sitting Bull: líder dos Hunkpapa Sioux;
• Thomas Paine: escritor;
• Martin Luther King: ativista;
• Malcolm X: porta-voz da nação Islâmica;
• Muhammad Ali: boxeador;
• Paul Robeson: cantor;
• Richard Pryor: comediante;
• Gil Scott-Heron: poeta e músico;
• Afrika Bambaataa: DJ, líder da comunidade do Bronx;
• Nat Turner: líder da rebelião de escravos de Southampton;
• Zumbi: líder do Quilombo dos Palmares;
• Huey Newton: co-fundador do Black Panther Party;
• Mumia Abu-Jamal: ex-ativista do Black Panther Party;
• Leonard Peltier: membro do movimento indígena Americano;
• Ernesto "Che" Guevara: líder comunista;
• Lampião: líder cangaceiro;
• Dragão do Mar: abolicionista;
• Chico Mendes: ativista.
Estes são apenas alguns dos nomes mais populares e que já foram absorvidos, na forma de símbolos distorcidos ou de moda, pelo sistema opressor contra o qual lutaram. O que todos estes têm em comum entre si e com grande parte dos movimentos ainda vivos é a luta por um ideal que morreu com o nascimento da civilização: liberdade. Tanto isto é verdade que, se este ideal já tivesse sido alcançado, nenhum destes nomes seria reconhecido, e estamos certos de que, qualquer que seja o leitos deste texto, irá reconhecer algum destes.
A opressão agora recebe diversos nomes, cada qual com um significado teórico bonito e intrincado: democracia, república, governo, capitalismo, comunismo, mercado etc. O que estes nomes têm em comum é o fim a que se destinam: uma representação de outra coisa, de modo que haja uma alienação do direito fundamental á liberdade e esta seja roubada por um “Estado de Direito”.
Em nome destas representações, ou alienação, como preferir o leitor, foram feitas diversas divisões e criadas inúmeras fronteiras ao redor do homem com o passar dos séculos e aprimoramento dos mecanismos de apropriação da liberdade. O globo terrestre foi dividido em fronteiras, a população em castas ou esferas mais ou menos perceptíveis, passou a existir a hierarquização de diversas esferas da vida social, da família ao trabalho e ao Estado. Sob o pretexto da organização e do bem comum, o homem perdeu-se e afastou-se cada vez mais de sua liberdade e de sua vontade, passando relegar sua segurança, sua liberdade de ir e vir, escolhas básicas que vão desde o que vestir até o que comer, a outras pessoas, apontadas como mais competentes, como melhores ou mais bem preparadas para fazer estas escolhas. Isso pra não falar na religião.
Vivemos uma ilusão de avanço, mas ainda hoje, o homossexualismo é um tabu, como se alguma pessoa pudesse dizer como outra deve amar. Ainda hoje, as mulheres precisam esconder o corpo para não serem atacadas na rua e acabar dando a entender que elas provocaram o ataque. Ainda usamos peças de vestimenta inúteis porque “assim manda o figurino”, ainda existem países regidos por monarquias e teocracias “ditados por Deus”. Ainda se queimam pessoas por causa de sua cor ou condição social e ainda, depois de tantas décadas, a África arqueja e não consegue se levantar. Só superamos a Era Medieval nos livros. Na realidade, a Idade das Trevas foi só o início de algo bem pior.
Mas também é natural do homem a ânsia por mudanças e a mesma esperança que o mantém preso, algumas vezes, transforma a algema em chave. Mesmo a liberdade tendo se tornado uma utopia, há quem insista em lutar e experimentar um mundo diferente, mesmo que apenas por pouco tempo. O conceito de liberdade parece ser alguma coisa inata ao homem, algo ao qual ele consegue remeter e sobre o qual consegue se posicionar mesmo nunca tendo experimentado de verdade.
Similares aos corsários de séculos passados, os piratas modernos também navegam, mas pela rede. Em vez de ilhas, seus abrigos são forums e portais na internet. E em vez de ouro, o bem maior é a informação. Mas a sede por liberdade é a mesma.
Os piratas modernos lutam pela liberdade de informação, de acessar e dominar a informação, para todos. Engana-se quem pensa que eles estão isolados apenas na internet. Os piratas modernos estão envolvidos nos mais diversos movimentos que lutam pela liberdade em alguma esfera, doz ambientalistas ao Black Bloc. Estão em toda parte, do Brasil ao Egito e dos Estados Unidos à China. Eles têm todas as idades. A internet levou a luta pela liberdade a uma outra esfera, mas o ideal é basicamente o mesmo: liberdade total e irrestrita. Apesar de o planeta estar dividido por linhas imaginárias, a internet não está. Sim, há o grande firewall da China (inevitável a associação à Grande Muralha), mas ele não é suficiente para barrar os piratas chineses. A maior barreira ainda é a comunicação, a linguagem, mas como especialistas em subversão do sistema que são, o mesmo mecanismo de língua franca, o inglês, funciona na internet. Mas esta barreira não para por aí. Saber utilizar e guardar o que é dito é a base para a sobrevivência das redes piratas. Programas como o Pigdin, que simula outros programas de troca de mensagens, são modificados para que as mensagens sejam criptografadas e, como a liberdade pressupões o acesso, está disponível para qualquer um. Não é necessário ser um super hacker para se fazer proteger nas conversas pela internet, por exemplo. O Pigdin é gratuito, e o mecanismo de criptografia (utilizado inclusive pelo wikileaks), também. Se chama OTR (off the track) e pode ser acessado por qualquer um (é só colocar no Google). O leitor deve estar se perguntando: mas se é assim tão simples, porque a grande maioria das pessoas não acessa esse tipo de recurso? Exatamente por causa da falta de informação.
As redes piratas funcionam organizadas em times, mais ou menos como as tripulações dos piratas antigos. Na área de games, por exemplo, times famosos são SKIDROW e Razor1911. Vale salientar que eles não competem entre si. Até chegam a se ajudar. É errado pensar que estas pessoa praticam a pirataria por puro vandalismo. Há uma filosofia por trás disso, inclusive diversos manifestos, como o da equipe do Pirate Bay. Mas, acima de tudo, há um ideal, uma utopia que se recusa a aceitar a impossibilidade de sua existência. Mas, como disseram os Situacionistas em 1968: “Soyez réalistes, demandez l'impossible.”